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Um conjunto Lolita vermelho e creme da Innocent World, com sombrinha e cesto

A cultura

Quando o conjunto entra no museu

O V&A preserva a moda Lolita com uma precisão extraordinária. Os arquivos da comunidade mostram o movimento, as alterações e a vida social que não cabem numa ficha de inventário.

Por FionaAtualizado 5 min de leitura

Um conjunto Lolita constrói-se através de relações: vestido e saiote, adereço de cabeça e cabelo, sapatos e postura, pessoa e ocasião. Quando um museu o incorpora na sua coleção, essas relações ganham legendas, números de inventário e uma pose fixa. O resultado é preciso, belo e incompleto.

Um conjunto Lolita vermelho e creme da Innocent World exposto num manequim com sombrinha e cesto
Vestido e duas faixas desenhados por Yumi Fujihara na Innocent World, 2011. N.º de inventário FE.242:1 a 3-2011. Fotografia do Victoria and Albert Museum, Londres. © Victoria and Albert Museum, Londres.

A fotografia do Victoria and Albert Museum de um vestido da Innocent World apresenta uma figura completa. Uma sombrinha abre-se atrás do manequim como uma auréola pálida. Um cesto de vime, luvas, uma fita de cabelo e sapatos prolongam a paleta de vermelho, creme e preto. Ainda assim, a legenda do museu identifica apenas o vestido e as suas duas faixas. Noutro ponto da mesma apresentação digital, a fita de cabelo tem uma ficha e um número próprios.

É assim que um conjunto se torna coleção. A fotografia restitui a impressão de um todo, enquanto o catálogo o divide em objetos que podem ser guardados, localizados e estudados. As duas perspetivas são úteis. Nenhuma equivale à experiência de vestir a roupa.

O museu precisa de limites

Os números de inventário dão limites duradouros a um objeto. Distinguem um vestido de outro, associam-lhe quem o fez e uma data, e permitem encontrar uma imagem depois de uma exposição encerrar. Numa moda que circula muitas vezes através dos nomes dos lançamentos, de fotografias de guarda-roupas e de memórias pessoais, estes registos têm uma estabilidade pouco habitual.

Também fixam uma resposta a uma pergunta que quem veste esta moda volta sempre a fazer: o que combina com o quê? O manequim vestido pelo museu sugere um conjunto terminado, mas uma faixa pode ser atada de outra maneira, uma blusa substituída, um saiote ganhar volume e o mesmo vestido passar de um chá formal para uma rua comum. O catálogo protege a peça. O conjunto continua vivo através do uso.

Um arquivo comunitário em chinês na Lo Library preserva outro tipo de testemunho. A secção dedicada a quem vestia Lolita nos primeiros tempos reúne fotografias comprimidas tiradas ao espelho, colagens, rostos ocultos e experiências repetidas com casacos, malas e cabelo. Faltam às imagens a luz controlada do museu e os metadados de cada objeto. Conservam a parte instável: pessoas a experimentar combinações em quartos, parques de diversões e interiores do dia a dia. O arquivo não deve ser tratado como uma cronologia verificada, mas é um testemunho valioso de roupa cujo uso se vai discutindo e ajustando, em vez de ser apenas exposta.

Não há um único ponto de partida

Nem as histórias institucionais traçam a mesma linha de partida. O V&A descreve o Lolita como um estilo de rua que surgiu no Japão durante a década de 1990. O estudo de Mariko Yahata sobre as suas raízes recua à moda romântica dos anos 1980, considera os anos 1990 uma segunda época de florescimento e os anos 2000 um período de diversificação. A diferença é esclarecedora. Uma subcultura raramente começa numa única data de lançamento. Vai reunindo roupa, música, lojas, revistas e hábitos até surgir uma linguagem reconhecível.

As aquisições do V&A de 2011 documentam um momento de maturidade dessa linguagem, não a sua origem. A coleção percorre conjuntos Sweet, Classic, Gothic, Punk e de inspiração japonesa. Estas designações dão ao público uma entrada no guarda-roupa, mas os objetos continuam a pôr à prova as categorias que lhes foram atribuídas.

Um vestido Gothic Lolita preto da Moi-meme-Moitie, com motivos de cruzes azuis, sombrinha e mala de mão
Vestido desenhado por Mana na Moi-meme-Moitie, 2011. N.º de inventário FE.249-2011. O V&A identifica a combinação de preto e azul-ultramarino escuro como uma assinatura visual da marca. © Victoria and Albert Museum, Londres. Imagem da apresentação da coleção do V&A.

As categorias desenham um mapa, não uma fronteira

O conjunto da Moi-meme-Moitie reconhece-se de imediato como Gothic Lolita: domina o preto, as cruzes ultramarinas pontuam o corpete e a bainha, e uma sombrinha prolonga a silhueta. No entanto, o decote quadrado, as mangas franzidas e os remates cuidadosamente repetidos pertencem à gramática mais ampla que partilha com conjuntos mais doces. A escuridão muda o registo emocional sem abandonar a estrutura.

O conjunto da Alice and the Pirates torna essa sobreposição ainda mais clara. O V&A descreve a marca como um ramo da Baby, the Stars Shine Bright criado para responder ao interesse crescente por influências Gothic e Punk. O nome junta a Alice de Lewis Carroll ao imaginário pirata associado a Vivienne Westwood. No manequim, o azul-claro e o branco sugerem doçura, enquanto os vivos pretos, os collants às riscas e um companheiro de peluche preto dão um tom mais incisivo ao conjunto.

Um conjunto Lolita da Alice and the Pirates em azul-claro, branco e preto, com collants às riscas e uma mala de peluche preto
Vestido com mangas amovíveis desenhado por Kumiko Uehara para a Baby, the Stars Shine Bright, 2011. N.º de inventário FE.314:1 a 3-2011. © Victoria and Albert Museum, Londres. Imagem do Victoria and Albert Museum.

Uma categoria ajuda quem observa à distância a reconhecer um ar de família. Só se torna restritiva quando é confundida com uma regra a que toda a gente tem de obedecer. As imagens do museu são mais expressivas quando as lemos como exemplos de escolhas, em vez de uniformes definitivos.

O corpo regressa à porta do museu

Em maio de 2012, durante a apresentação de Kitty and the Bulldog no V&A, mais de cem membros do Tea Party Club, sediado no Reino Unido, visitaram o museu vestidos de Lolita. Uma reportagem do coletivo de jovens do museu regista uma grande diversidade de profissões, percursos até ao estilo e adaptações pessoais das suas convenções. Os participantes insistiram na qualidade dos materiais, e alguns falaram de adaptar a moda ao seu gosto.

Esse encontro oferece o que o manequim não consegue: uma dimensão social. Cem conjuntos à entrada do museu nunca se separariam de forma arrumada em poucas categorias. Os tecidos reagem à chuva. Os sapatos alteram o passo de um grupo. Os amigos reparam no pormenor que o catálogo omite. Um vestido passa a fazer parte de um encontro, em vez de se resumir a uma única imagem de frente.

Dois arquivos são melhores do que um

O registo do museu dá-nos clareza. Podemos estudar a colocação dos remates, o ritmo das cores e a relação entre acessórios sem o ruído visual de uma fotografia de rua. O arquivo comunitário mostra o peso das circunstâncias. Vemos as peças sair da imagem da marca, encontrar um guarda-roupa disponível e ganhar uma história pessoal.

Ler os dois em conjunto muda a pergunta. Em vez de decidir qual é o mais autêntico, podemos perguntar o que cada um está preparado para recordar. O museu guarda a memória do objeto com um cuidado extraordinário. Quem o vestiu lembra-se do que ele fez.

Fontes e créditos das imagens

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